Entidade europeia recua da ameaça de não disputar torneios da FIFA depois de receber compromisso de que modelo com investidores privados não será retomado; desgaste com Gianni Infantino, porém, continua
A UEFA decidiu retirar a ameaça de boicote às competições organizadas pela FIFA após receber garantias de que a entidade máxima do futebol mundial não retomará o projeto que previa a entrada de investidores privados na exploração comercial de seus principais torneios, entre eles a Copa do Mundo. A decisão reduz a tensão institucional imediata, mas não encerra a crise política envolvendo o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
A polêmica começou no fim de julho, quando veio a público o projeto FIFA Forward Enterprise (FFE). A proposta previa a criação de uma subsidiária responsável pela exploração comercial das competições da entidade, com a possibilidade de investidores privados adquirirem uma participação minoritária no negócio. O plano considerava a venda de até 20% da nova empresa e poderia levantar aproximadamente US$ 4,2 bilhões, a partir de uma avaliação estimada em US$ 20 bilhões. A FIFA defendia a iniciativa como uma maneira de aumentar as receitas e ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol nas federações filiadas.
A reação europeia foi imediata. Em 30 de julho, a UEFA e suas 55 federações nacionais rejeitaram de forma unânime o projeto e chegaram a anunciar que suas seleções não participariam de competições da FIFA enquanto a proposta permanecesse em discussão. Para os dirigentes europeus, competições como a Copa do Mundo não deveriam ter sua propriedade ou governança vinculada aos interesses financeiros de investidores privados. A UEFA também criticou a forma como o projeto foi conduzido e cobrou maior transparência no processo decisório.
Diante da pressão internacional, Infantino anunciou em 31 de julho que o FIFA Forward Enterprise não seguiria adiante. Na ocasião, o presidente da FIFA afirmou que o projeto havia provocado divisões que já não atendiam ao objetivo originalmente proposto. A simples retirada do plano, no entanto, não foi suficiente para encerrar o impasse. A UEFA exigia também garantias de que uma iniciativa semelhante não seria reapresentada no futuro.
Agora, após semanas de negociações, a FIFA teria formalizado esse compromisso, permitindo que os europeus abandonassem a ameaça de boicote.
Mundial Sub-20 feminino era o primeiro torneio sob risco
O acordo tem efeito imediato no calendário internacional. A Copa do Mundo Feminina Sub-20, marcada para acontecer na Polônia entre 5 e 27 de setembro, seria a primeira grande competição diretamente afetada pela ameaça europeia.
Inglaterra, França, Itália, Portugal e Espanha estão entre as seleções da UEFA classificadas para o torneio, além da anfitriã Polônia. O Brasil também disputará a competição e está no Grupo B, ao lado de Inglaterra, Canadá e Tanzânia.
O impasse também despertava preocupação em relação a torneios futuros. Entre eles está a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil, e que poderia sofrer forte impacto esportivo e comercial caso uma ruptura entre FIFA e UEFA se prolongasse. A ameaça havia sido citada quando os europeus anunciaram sua posição contra o projeto.
Crise com Infantino ainda não terminou
O recuo no boicote não significa, porém, uma reconciliação entre UEFA e Gianni Infantino. O episódio aprofundou críticas sobre a governança da FIFA e aumentou a pressão política sobre seu presidente. Nos últimos dias, federações de países nórdicos, como Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Islândia e Ilhas Faroé, afirmaram publicamente ter perdido a confiança em Infantino e defenderam uma investigação independente sobre o projeto.
Assim, a ameaça mais imediata ao calendário do futebol internacional parece afastada, mas a discussão deixada pelo FIFA Forward Enterprise permanece aberta. Mais do que uma disputa comercial, a crise colocou no centro do debate uma questão que deve acompanhar a FIFA nos próximos meses: até onde uma entidade esportiva pode buscar capital privado para ampliar suas receitas sem entregar a investidores parte do controle econômico dos torneios que administra?
A UEFA conseguiu barrar o projeto e suspendeu o boicote. A disputa sobre os rumos da FIFA e a liderança de Infantino, entretanto, está longe de terminar.

