Após a derrota do Grêmio para o Red Bull Bragantino, no dia 23 de agosto, pelo Campeonato Brasileiro, o técnico Luís Castro criticou publicamente a maneira como jogadores e treinadores são tratados nas redes sociais. Em coletiva de imprensa, Castro destacou: “Há várias formas de criticar o trabalho de um treinador; não é preciso ofendê-lo. Sou contra ofensas, porque isso não deve fazer parte da nossa convivência”.
As declarações de Castro ressoam com as de outros técnicos, como Abel Ferreira, do Palmeiras, que já havia mencionado que o “futebol está doente”. O treinador gaúcho foi mais enfático ao afirmar que “não é o futebol que está doente, mas sim as pessoas”. Ambos os treinadores lamentaram a falta de empatia e os ataques dirigidos a profissionais após os jogos.
Críticas que vão além do desempenho
As críticas enfrentadas por jogadores também se intensificaram, muitas vezes extrapolando as questões de desempenho em campo. Philippe Coutinho, em 2025, quando deixou o Vasco, escreveu uma carta de despedida expressando a dificuldade de ser julgado por pessoas em aspectos que não refletem seu caráter.
As ameaças também se tornaram um problema sério. O zagueiro Matheus Dória, do São Paulo, revelou ter recebido ameaças de morte após falhas em partidas, enquanto Willian e suas filhas enfrentaram intimidações virtuais durante sua passagem pelo Grêmio, o que influenciou sua decisão de deixar o futebol brasileiro.
Impactos psicológicos e demandas do cotidiano
A pressão da exposição nas redes sociais pode ter efeitos profundos. A psicóloga Priscila Mendes, do Inter de Minas, ressaltou que a cobrança constante avaliativa pode manter os atletas em um estado de alerta mesmo fora do campo. “Após um jogo, a avalanche de comentários e críticas pode ser avassaladora, gerando ansiedade e estresse”, explicou.
Roger Machado, ex-técnico do São Paulo, fez um alerta sobre a distinção fundamental entre crítica e ofensa. “A pressão sempre existiu, mas a forma como ela chega mudou. Precisamos separar a crítica construtiva da agressão pessoal”, disse ele.
Redução de exposição como estratégia
Para lidar com a pressão digital, alguns atletas optaram por reduzir sua presença nas redes sociais. Léo Ortiz, zagueiro do Flamengo, revelou ter desativado suas contas devido a críticas que afetavam sua vida pessoal, afirmando que “não se importe com a crítica de desempenho, mas que as ofensas e a energia negativa o incomodavam”.
No entanto, o afastamento das redes sociais não elimina sua importância nas carreiras dos atletas, que podem utilizar plataformas para se conectar com torcedores e gerar receitas. Algumas histórias de sucesso, como a do mesa-tenista Hugo Calderano, que conquistou mais de 1 milhão de seguidores após os Jogos Olímpicos de Paris em 2024, mostram a relevância das redes.
Comportamento digital e mercado de transferências
O comportamento dos atletas nas redes sociais também está influenciando o mercado de transferências. Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, contou que clubes europeus começam a observar a atuação digital dos jogadores antes de negociações. “Os clubes buscam compreender a postura do atleta fora de campo, discutindo como ele lidaria em situações de crise”, revelou.
A exposição digital também impacta o tempo de descanso dos jogadores. Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, destacou que o acesso constante a mensagens e notificações tem reduzido tanto a qualidade quanto a quantidade de horas de sono dos jovens atletas.
Estratégias de proteção e acompanhamento psicológico
A solução para esses problemas não está apenas em deixar as redes sociais, mas também em estabelecer limites de uso. Priscila Mendes sugere que desativar temporariamente as contas ou deixar a gestão sob responsabilidade de uma equipe pode ser uma forma eficaz de se proteger. “Isso não é fraqueza; é uma maneira de recuperar o equilíbrio”, concluiu.
Os clubes também têm um papel importante e podem oferecer suporte psicológico contínuo, além de promover uma educação digital adequada. Com iniciativas de apoio, atletas e treinadores poderão lidar melhor com as críticas e preservar sua saúde mental.



