Palmeiras e Flamengo são hoje os dois maiores exemplos de sucesso no futebol brasileiro. Organizaram as finanças, aumentaram receitas, profissionalizaram estruturas e transformaram planejamento em títulos. Em um cenário ainda marcado por dívidas, improviso e crises administrativas, provaram que é possível vencer sem depender de soluções emergenciais. Por isso, deveriam liderar pelo exemplo. No entanto, fora de campo, os dois clubes têm escolhido outro caminho. Em vez de usarem sua força para contribuir com a modernização do futebol nacional, protagonizam uma guerra política marcada por acusações, notas oficiais, provocações e tentativas de deslegitimar o rival.
É um comportamento que apequena instituições tão grandes. Palmeiras e Flamengo não precisam criar uma rivalidade artificial. Ela já existe dentro de campo, construída por finais, disputas de títulos e temporadas em que um se tornou a principal referência do outro. O problema começa quando essa disputa deixa de ser esportiva e passa a dominar os bastidores. Divergências sobre arbitragem, receitas, direitos de transmissão, liga de clubes e relação com entidades são naturais. O que não deveria ser natural é transformar cada desacordo em uma batalha pública.
A lógica parece simples: o rival nunca apenas defende seus interesses. Ele conspira, manipula, pressiona ou tenta obter vantagem indevida. Com isso, o debate deixa de ser técnico e passa a ser emocional.
A arbitragem brasileira precisa melhorar. Há falhas de critério, comunicação, formação e uso do VAR. Os clubes têm todo o direito de cobrar profissionalização e transparência. Mas existe uma diferença entre criticar decisões e sugerir que um adversário é sistematicamente favorecido. Quando dirigentes adotam esse discurso, ajudam a criar um ambiente em que nenhuma vitória parece legítima. Se o próprio clube perde, surge a narrativa da perseguição. Se vence, qualquer erro a favor é tratado como detalhe.
Essa postura pode agradar às torcidas, mas não resolve nenhum problema. Ao contrário, aumenta a pressão sobre árbitros, alimenta teorias conspiratórias e enfraquece a credibilidade do campeonato que os próprios clubes desejam valorizar.
Palmeiras e Flamengo passaram anos construindo a imagem de clubes modernos. E, em muitos aspectos, são mesmo. Mas modernizar o futebol não significa apenas equilibrar contas, contratar bons jogadores e ampliar receitas. Também exige responsabilidade institucional. Os dois poderiam liderar discussões sobre fair play financeiro, calendário, arbitragem profissional, governança e fortalecimento das competições. Poderiam mostrar que rivais são capazes de negociar com firmeza sem transformar toda divergência em hostilidade. Em vez disso, muitas vezes reproduzem os mesmos vícios da velha política do futebol brasileiro.
A contradição é evidente: clubes que se tornaram exemplos administrativos continuam presos a práticas ultrapassadas no campo político.
Grandeza também se demonstra fora de campo
Ninguém espera que Palmeiras e Flamengo sejam aliados permanentes. A rivalidade faz parte do futebol, assim como a defesa dos próprios interesses. O que se espera é maturidade. Grandeza não se mede apenas por títulos, receitas ou tamanho da torcida. Também se mede pela capacidade de influenciar positivamente o ambiente ao redor. Palmeiras e Flamengo têm força suficiente para elevar o nível do futebol brasileiro. Mas, ao escolherem o confronto constante, fazem o contrário. Geram barulho, mobilizam torcedores e ocupam manchetes, mas pouco contribuem para resolver os problemas estruturais do esporte.
Para os dois clubes é um desperdício de liderança.

