A pesquisa “Por que, ‘ainda’, não aqui?”, realizada pelo Ibope, revela que grandes marcas internacionais continuam distantes dos clubes de futebol brasileiros, apesar do potencial do mercado nacional. Multinacionais como Coca-Cola, Pepsi, Hyundai e outras estão presentes em times de outros países da América Latina, mas não investem no Brasil, o que levanta questões sobre os motivos dessa falta de interesse.
Desde sua primeira edição em 2018, o estudo aponta vários obstáculos que dificultam a atração de patrocinadores internacionais. Um deles é a reputação dos clubes brasileiros, que, segundo José Colagrossi, responsável por edições anteriores do levantamento, é um fator que desestimula os investimentos. A falta de credibilidade institucional, governança e profissionalização na gestão são destacados por especialistas em marketing como barreiras significativas.
Credibilidade e Governança como Desafios
Fábio Wolff, especialista em marketing esportivo, ressalta que, embora o futebol brasileiro apresente um enorme potencial, a aproximação com grandes empresas demanda planejamento e estruturas de gestão profissionais. Os clubes devem desenvolver projetos de longo prazo e contar com equipes capacitadas para entender as necessidades dos patrocinadores.
A reputação institucional é considerada crucial, com empresas globais tendendo a priorizar clubes que apresentem organizações sólidas e regras de governança transparentes. Eduardo Corch, consultor de marketing, também avalia que fatores como a falta de profissionalismo, crises de credibilidade e dívidas elevadas contribuíram para a atual situação.
Oportunidades Comerciais Limitadas
Outra questão em pauta é como os clubes brasileiros apresentam suas oportunidades comerciais. Colagrossi argumenta que a simples exposição da marca na camisa pode não ser suficiente para justificar um investimento internacional, e que é necessário criar projetos que ofereçam resultados concretos aos patrocinadores.
Na visão do economista, transformar um patrocinador por outro não resolve o problema estrutural; é preciso mudar o modelo de negócios dos clubes e desenvolver propostas que demonstrem valor no futebol brasileiro.
Resistência na Gestão de Marketing
Idel Halfen, ex-vice-presidente de marketing do Fluminense, completa que, embora o marketing dos clubes tenha evoluído na última década, a resistência de dirigentes, que vêem o marketing como um custo e não como uma estratégia de receita, ainda é um entrave significativo.
Um aspecto importante discutido é a capacidade dos clubes de entregar resultados alinhados aos objetivos comerciais das multinacionais. O CEO da Sport Track, Rafael Plastina, observa que o futebol brasileiro carece de um alcance internacional comparável a outros campeonatos, o que limita as oportunidades para patrocinadores que desejam ampliar sua presença em diferentes mercados.
Crescimento no Setor Automotivo
Enquanto marcas tradicionais ainda hesitam em investir, o setor automotivo teve um crescimento substancial em patrocínios entre 2024 e 2026, expandindo de uma para dez montadoras patrocinadoras, em grande parte devido à entrada de montadoras chinesas no mercado. Contudo, Danilo Amâncio, coordenador de marketing do Ibope, destaca que esse crescimento não se traduz em uma aproximação significativa de grandes marcas globais com o futebol brasileiro.
O cenário evidencia o potencial comercial dos clubes, mas também sugere a urgência de diversificar os patrocinadores. Para isso, será necessário combinar credibilidade institucional, profissionalização da gestão, alcance internacional e projetos comerciais que comprovem retorno sobre o investimento.

