Recordes de público, segurança reforçada e receitas históricas marcaram a Copa, enquanto a politização do torneio alimentou críticas à Fifa

A Copa do Mundo de 2026 terminou com números superlativos, estádios cheios e uma operação de segurança capaz de responder aos desafios do maior torneio já organizado pela Fifa. Dentro de campo, 48 seleções disputaram 104 partidas durante quase seis semanas nos Estados Unidos, México e Canadá. Fora dele, porém, o saldo foi mais complexo.
A entidade comandada por Gianni Infantino transformou o Mundial em uma máquina de arrecadação sem precedentes, mas terminou o torneio sob críticas por sua aproximação excessiva com o presidente norte-americano Donald Trump. O que deveria ser uma relação institucional entre a Fifa e um dos países-sede ganhou contornos de aliança política, com episódios que colocaram em dúvida a independência da organização. A Copa funcionou como evento esportivo e comercial. Como demonstração de neutralidade e boa governança, deixou marcas difíceis de apagar.
Uma Copa gigantesca dentro e fora de campo
A primeira edição da Copa do Mundo com 48 seleções representou uma mudança estrutural no principal torneio de futebol do planeta. O aumento de 32 para 48 participantes levou o calendário a 104 jogos, ampliou o alcance geográfico da competição e abriu espaço para países sem tradição no Mundial. Havia o temor de que a expansão produzisse partidas desequilibradas e uma fase de grupos com pouco interesse. Embora alguns confrontos tenham confirmado essa preocupação, o torneio também apresentou surpresas, recuperações improváveis e boas campanhas de seleções menos cotadas.
O público respondeu positivamente. Antes da final, a Fifa informou uma presença acumulada próxima de 6,7 milhões de espectadores. Mesmo com ingressos caros e críticas ao sistema de comercialização, os estádios ficaram cheios nas principais partidas. O desempenho reforçou a aposta de Infantino em competições maiores. Para a direção da Fifa, mais seleções significam mais mercados, mais direitos comerciais, mais patrocinadores e maior circulação de receitas entre as associações nacionais.
O futebol, nesse modelo, também é tratado como uma plataforma global de entretenimento.
Fifa alcança receita recorde

O maior triunfo da Fifa aconteceu nos cofres. A entidade deve anunciar aproximadamente mais US$ 66 bilhões em receitas relacionadas à Copa de 2026. O valor supera com folga a projeção inicial de US$ 11 bilhões e consolida o Mundial como o produto esportivo mais rentável da organização. Parte importante desse resultado veio da venda de ingressos, dos pacotes de hospitalidade e do mercado oficial de revenda. Na plataforma secundária administrada pela Fifa, a entidade cobrava uma taxa de 15% do vendedor e outra de 15% do comprador.
Na final entre Espanha e Argentina, pacotes de hospitalidade chegaram a ser oferecidos por US$ 34.500 por pessoa. Os preços alimentaram críticas de torcedores e autoridades, que acusaram a organização de transformar a Copa em um evento cada vez mais distante do público comum. Com mais dinheiro disponível, Infantino amplia sua influência política dentro da própria Fifa. As 211 associações filiadas participam da escolha do presidente da entidade e dependem, em diferentes níveis, dos programas de financiamento e desenvolvimento administrados pela organização.
O faturamento recorde, portanto, não representa apenas um resultado comercial. Ele fortalece a estrutura de poder do presidente da Fifa e reduz a disposição de dirigentes nacionais para confrontá-lo publicamente.
Segurança passa no teste mais difícil

A segurança era uma das maiores preocupações antes do início da Copa. Foram 104 partidas distribuídas por 16 cidades em três países, em um cenário marcado por conflitos internacionais, tensões políticas e ameaças de ataques ou sabotagens digitais. Nos Estados Unidos, o torneio recebeu uma classificação federal de segurança comparável à adotada para o Super Bowl.
A operação envolveu Serviço Secreto, Departamento de Segurança Interna, forças policiais locais, empresas privadas e tecnologias como câmeras com inteligência artificial, drones de interceptação, equipamentos móveis de raio X e robôs para inspeção de bagagens. Apesar da dimensão do desafio, não houve incidentes graves que comprometessem a realização das partidas. O controle nos estádios funcionou e as delegações circularam com segurança.
Na final, disputada em Nova Jersey, a presença de Trump elevou o evento à categoria de segurança máxima. As revistas individuais provocaram filas e atrasos, mas o jogo ocorreu normalmente diante de mais de 80 mil pessoas. Do ponto de vista operacional, a Copa forneceu uma demonstração de capacidade logística. O resultado foi especialmente relevante para os Estados Unidos, responsáveis pela maior parte dos jogos e interessados em receber outras competições internacionais.
A relação entre Infantino e Trump ultrapassou o protocolo
Se a operação de segurança representou um sucesso, a condução política da Fifa produziu o principal desgaste do Mundial. Gianni Infantino manteve uma relação ostensivamente próxima com Donald Trump. O presidente da Fifa frequentou a Casa Branca, participou de eventos na Trump Tower e fez elogios públicos ao líder norte-americano. A aproximação poderia ser entendida como parte da diplomacia necessária à organização de uma Copa. O problema surgiu quando essa relação pareceu interferir em decisões esportivas.
A maior controvérsia ocorreu após a expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun em uma partida contra a Bósnia e Herzegovina. Trump entrou em contato diretamente com Infantino para pedir a revisão da punição. Posteriormente, o comitê disciplinar da Fifa reverteu a suspensão, permitindo que o jogador enfrentasse a Bélgica nas oitavas de final. A Fifa afirmou que a decisão foi tomada de forma independente. A sequência dos acontecimentos, no entanto, causou indignação entre dirigentes e associações, especialmente na Europa, e criou a percepção de que a entidade havia cedido à pressão do presidente do país-sede.
Mais do que beneficiar uma seleção, o episódio atingiu a credibilidade do sistema disciplinar. No futebol, a confiança depende da ideia de que regras são aplicadas sem considerar poder político, interesse comercial ou nacionalidade. Quando um chefe de Estado interfere publicamente e uma punição é alterada logo depois, a suspeita torna-se inevitável.
Trump ocupa o palco da final
O encerramento do Mundial confirmou a dimensão política assumida pelo torneio. Trump participou da entrega do troféu ao lado de Infantino após a vitória da Espanha sobre a Argentina. Ao entrar no gramado para a cerimônia, ambos foram recebidos com vaias por parte do público. Depois de entregar a taça, Trump tentou permanecer próximo dos jogadores espanhóis durante a celebração, mas foi discretamente conduzido para fora do espaço por Infantino. A cena lembrou a final do Mundial de Clubes de 2025, quando o presidente norte-americano também permaneceu no palco durante a comemoração do Chelsea.

A participação de autoridades em cerimônias esportivas não é novidade. Presidentes, monarcas e chefes de governo já entregaram a taça em outras edições da Copa. A diferença, em 2026, foi o protagonismo concedido a Trump durante todo o processo e a impressão de que a Fifa não apenas cumpriu um protocolo institucional, mas se colocou a serviço da imagem política do presidente.
Uma Copa lucrativa, mas com custo reputacional
A Fifa encerra a Copa de 2026 com argumentos sólidos para celebrar. O torneio teve público recorde, grande repercussão mundial, receitas inéditas e nenhuma crise grave de segurança. Ao mesmo tempo, a entidade sai politicamente arranhada.
A proximidade de Infantino com Trump, a interferência presidencial em um processo disciplinar e a transformação da final em palco político contrariaram o discurso de neutralidade defendido pela organização. O Mundial comprovou que a Fifa sabe ampliar competições, vender ingressos, atrair patrocinadores e gerar bilhões de dólares. O desafio continua sendo demonstrar que tamanho poder comercial não coloca as regras do futebol à disposição de governos e líderes influentes.
Dentro de campo, a Copa foi decidida pela bola. Nos bastidores, dinheiro e política disputaram espaço até o último minuto.

